Thursday, November 04, 2010

MORTE

A minha filha tem uma fixação enorme com o tema da morte.
Penso que tudo começou com a morte da minha avó mas andei a pesquisar na net e dizem que é normal nesta idade... Normal ou não, sei que a minha amorinha rara é a noite em que não me diga que tem medo. Nas palavras dela “Tenho medo e não gosto de morrer”. Esta frase é repetida quase todas as noites quando a deito. Já lhe expliquei que ela é muito pequenina e que ainda tem muito tempo para viver, que normalmente só as pessoas mais velhas é que morrem, as que são muito, muito velhas. Também pensei que o problema dela é pensar que pode ficar sozinha porque às vezes diz que não quer que eu morra e expliquei-lhe que mesmo que eu morra está o papá para tratar dela, ou se ele também morrer tem o mano e tem primos e outras pessoas da família.
O facto é que ela está extremamente ligada a mim e muitas vezes diz ao pai “Eu gosto mais da mamã” e com o pai não fala do assunto da morte e do medo que tem da mesma. Já comigo o tema é recorrente...
Na terça-feira foi feriado e eu e o papá fomos ao hospital ver a avó do papá que estava muito mal. Ainda pensámos em levar o boneco e a amorinha mas a avó do papá disse para não levar que não era local para crianças. Obviamente não dissemos nada a eles sobre esta visita ao hospital. A verdade é que a amorinha se fartou de chorar à noite com medo de morrer e que não quer morrer e tem medo.

Ontem à noite a avó do papá faleceu e ainda não disse nada à amorinha nem ao boneco, mas vou ter de dizer pois amanhã é o velório e eles terão de ir. Já estou a antever que a amorinha vai ficar novamente mais obcecada como tema...
Ontem faleceu também o Afonso, depois de um ano de luta contra o cancro que eles acompanharam e também terei de lhes dizer...
Esta noite não vai ser fácil e já andei a pesquisar umas coisas sobre o assunto.



"Com o atingir dos seis anos de idade, a criança atinge uma fase de desenvolvimento que lhe permite encarar a morte como algo irreversível, perdendo o seu lado fantasioso e assumindo uma vertente mais concreta, o que lhe provoca medo da sua própria morte, bem como a das suas figuras de referência. Verifica-se aqui uma transição do medo de separação para o medo de morte. Aí, apresenta uma associação de morte a coisas concretas, como a uma pessoa, a caixões, cemitérios, etc."

Informar sobre a morte
"Fale e ouça a criança - O melhor a se fazer é deixar a criança perguntar o que quiser, encorajando-a a expressar o que sente. Responda a todas as perguntas com palavras simples e frases curtas para que a criança possa entender perfeitamente o processo natural de falência humana.
Uma dica: evite falar que a pessoa dormiu para sempre ou descansou, a criança leva tudo ao “pé da letra” e pode ficar com medo na hora de dormir ou achar que a pessoa que morreu acordará. A expressão “foi fazer uma longa viagem” ou “foi embora” também pode confundir a criança e levá-la a acreditar que todos aqueles que farão uma viagem nunca mais voltarão ou então que a pessoa morta poderá voltar um dia.
Se alguém perto da criança como pais ou avós morrem, a criança não deve ser excluída da experiência da perda como forma de poupá-la. A criança precisa saber da existência da morte, aceitá-la para enfim criar o seu processo de luto. Cada criança mostra o seu luto de diferentes modos e esse processo é fundamental para conseguir passar por esse momento sem criar culpa, medo ou traumas.
O último adeus - O funeral só deve ser assistido pela criança se ela quiser. E não faça com que ela se sinta culpada se não desejar ir. O apoio das pessoas de sua confiança é muito importante. Se a decisão for de ir ao enterro, explique como o será e as cenas tristes que ela visualizará ao seu redor, como a existência do caixão e de pessoas chorando.
Por isso que os pais são essenciais nesse crescimento da criança sem traumas. Se os pais têm medo da morte e tentarem “poupar” o filho, a criança reagirá da mesma forma. Mas se os pais mostrarem com naturalidade o ciclo da vida, a criança lidará com a morte sem problemas
"


"Em algumas ocasiões,são os próprios pais que despertam essa preocupação ao recomendarem aos seus filhos que não corram na rua ou que tomem cuidado com os carros,que podem atropelá-los e levá-los a morte.
Mas a justificativa dada com maior frequência é a idade."As pessoas morrem porque ficam velhas",costumam explicar os pais.No entanto,precisamos salientar que o dia-dia pode contradizer essa informação,como quando a criança perde um amiguinho ou mesmo um parente.Isso pode desencadear um medo ainda maior:o de perder os pais.
Se isso acontecer com voçê,uma boa alternativa para acalmar a criança é abraçá-la e dizer a ela que voçê está ali para protegê-la,e que não vai deixá-la sozinha nunca.
"

Um documento muito interessante: “O que a criança mais receia é a separação, é ficar separada de quem ama.”

Um post interessante sobre um livro

6 comments:

Cindy said...

Não é uma tarefa fácil dadas as circunstâncias. Eu, no teu lugar, não levava os meninos ao velório da avó. Ela era velhinha e partiu. É simples, comparada com a morte do Afonso. Espera mais algum tempo até lhes contares...

Um beijo no coração e os meus sentimentos.

IMaria said...

tem tive essa fase e digo-te que é de cortar o coração. Ficamos quase sem palavras e a achar que eles têm razão, né? Mas é a vida e temos de lhes explicar da melhor forma possível. Eu acho que não os devias levar ao velório...é demasiado pesado para eles. Eu fiz isso quando a avó do meu marido faleceu. Expliquei-lhes apenas que partiu mas não lhes mostrei todo o cenário triste que isso acarreta a todos. Eles venceram bem esse problema...ficou sempre a recordação da Quica viva e não morta. PArece-me que para a cabeça deles é bem mellhor. Um beijinho e desculpa ter-me alongado e se me meti na tua vida. É só a minha opinião pois passei por isso.

Anabela said...

Os meus sentidos pesamos!Nestas alturas nao sei que dizer,bjs

sandra said...

Pois, quando vi a noticia do Afonso, lembrei-me de voçes.
Sabes, o Tiago também passou por uma fase assim. E o Diogo também. E eu lá lhes disse a verdade,todos podemos morrer, mesmo antes de ficarmos velhotes, mas nesses casos só em circunstâncias especiais. E que, mesmo que eles algum dia tiverem que ficar sem mim têm sempre alguém por perto que gosta tanto deles como eu.
E pronto, eles aceitaram e entenderam. Claro que não foi logo, claro que demorou tempo, e que me foram fazendo perguntas. E eu mantive-me sempre na mesma "versão", verdadeira mas sem grandes dramatismos.
Olha, eles têm mesmo que ir ao funeral? Porque, isso é que eu acho que perguntava se queriam ir, ou não. No entanto, eu considero um funeral uma oportunidade de despedida, nem que seja no pensamento, e acredito que uma criança também o compreende, e sabe perfeitamente o que aquilo representa: no fundo, uma despedida.
È o que eu penso, e fica um grande beijinho
PS: Tenho uma boa novidade, mas fica um mail que depois te mando, ok.
Beijinhos grandes homónima, cabeça erguida, pensamento positivo, pra frente é caminho...e...tudo isto passa (tu própria já passaste por isso, certo)
xau do algarve

ameixa seca said...

De facto é algo natural e que pode causar muita angústia na criança e nos pais. Só os levaria ao velório se eles quisessem ir, é um ambiente pesado até para os adultos.
Lamento muito as tuas perdas!

Miduxe said...

Não é fàcil, por aqui as perguntas são uma constante por isso trouxe livros para lermos juntos.
Como explicar bem algo que continua a ser pouco claro para nós adultos...
Como não hà pai nem do meu lado nem do lado do maridão,explico que fico triste por já não ter o meu pai,mas que ele està no meu coração.E os piolhicos aceitam;
Enfim...beijos grandes