Wednesday, September 20, 2006

A “FAMÍLIA” (DELE)

Na continuação de:
A PONTA DO VÉU I
A PONTA DO VÉU II
A PONTA DO VÉU III
VIAGEM
ATERRAR EM MACAU!
ENFIM MACAU!
E A DESCOBERTA


Inevitavelmente.
Faz “parte do pacote”
O namorado
Tinha (tem!) família
Uma família que eu não conhecia
Que nunca tinha visto
Que não me conhecia
Nunca me tinha visto
Uma família de mais duas pessoas
A mãe e a irmã
(O papá do papá faleceu quando o papá tinha apenas 8 anos)

No início do namoro
Tal como eu
O papá também não contou nada
A família não sabia
Em Portugal
Muitos amigos de Macau
Amigos que eu fui conhecendo
E foi-se sabendo
E a notícia
Atravessou meio mundo
E chegou a Macau
A notícia que queria dar pessoalmente
Chegou mais rápido
A irmã num telefonema
Informou-o que a “mãe já sabia”
Ele sem compreender
Perguntou do que falava
“Da namorada portuguesa”
A resposta dada
Senti-me diferente quando o soube
Talvez até indesejada
“Portuguesa” pareceu-me defeito

Mais de um ano depois
Dele regressar a Macau sozinho
Eu ia-me juntar a ele
Acho que elas já não acreditavam
Que eu ainda o amava
Que o amor era forte
E tinha resistido tanto tempo

Ao chegar a casa dele
Havia mais um ramo de rosas
Rosas brancas, muito bonitas
À minha espera
Rosas que a irmã dele me oferecia
Um gesto simpático
Que me fez sentir benvinda

Conheci-as pessoalmente
No dia seguinte
Ao jantar
Em casa da irmã
Onde a mãe também estava a morar

Não sei descrever o que esperava
Talvez não ser bem aceite
Que não gostassem de mim
Afinal era portuguesa
Não chinesa...

A irmã é mais velha que ele
Mais velha que nós, dois anos
Sorriu-me quando entrei
Cumprimentou-me com dois beijinhos
Coisa rara por estas paragens
Em que tal é um contacto demasiado íntimo
Falava algumas palavras em português
Pronuncia mal os “r”s
Como quase todos os chineses
Que esse som não consta da língua deles
Tive (tenho) dificuldades em compreendê-la
Pessoa de poucas palavras
No início esforçou-se por me fazer sentir
Que era benvinda

A mãe dele(s) sorriu-me quando me viu
Penso que não era o que desejava para o filho
Foi a ideia que fiquei desde o telefonema
É a ideia que ainda tenho...
Não a achei (acho) acolhedora
Não me senti “à vontade”
Senti-me intimidada
Insignificante
Não liguei
Estava feliz
Não ia morar com ela...
Não falava (nem fala) quase nada de português
Eu não falava nada de chinês...
Sabia apenas “ngo ngoi nei” (amo-te)
Nada muito útil...

No entanto, sentia
Que estava preocupada
Esforçada para que eu gostasse
De Macau, de tudo
Para que me sentisse bem
Para que me adaptasse
Me sentisse “em casa”
Penso que temeu
Que se eu não ficasse bem
E regressasse a Portugal
Que o filho fosse comigo
E Portugal fica longe
Tão longe...

A “nossa” casa
A casa onde morávamos
Era a casa dela
Ela tinha as chaves
E aparecia lá
Sem tocar à campaínha
Sem avisar
Também era assim
Em casa da irmã dele
Porque ele tinha as chaves
Então era só abrir a porta e entrar
Estas liberdades faziam-me confusão
E começaram a irritar-me
Vinha “arrumar a casa”
Como se eu não o soubesse fazer
Como se eu fosse uma inútil...

A mãe dele é católica
E ficar juntos sem casar
Não fazia sentido
E, por ela, continuávamos a usar dois quartos
Embora na maioria das vezes
Ficasse no quarto dele
Mais uma situação que aceitava
Mas que me irritava

Todos os dias
Jantar em casa da irmã
Preparado pela mãe dele
A comida era (é) boa
Mas eu preferia a portuguesa
E todos os dias a comer “aquilo”
Comecei a fartar-me
E a comer cada vez menos
Perdi 10 kgs em duas semanas
E andava irritada, enervada
Não gostava de ir lá todos os dias
Mas não queria quebrar os laços familiares
Eu, uma estranha
Acabadinha de chegar
E comecei a ficar triste
Muito triste
Com vontade de regressar
Começámos a discordar
E pensei que o amor não fosse aguentar...

17 comments:

Céu Estrelado said...

Querida fica sabendo que li todos os teus posts desde que fui de férias, como se fosse um livro daqueles que se começa e só descansamos qd chegamos ao fim...e fica sabendo, se eu já te admirava por tantas razões, fiquei a admirar-te mais ainda! Tens uma força de vontade louvável e uma coragem infindável, ês uma lutadora nata e desejo sinceramente que a vida te proporcione tudo o que de melhor contem e que sejas sempre feliz para poderes transmitir toda essa força aos teus pequeninos!
Aprendo muito contigo, podes acreditar!
Beijinhos grandes :)

Noite said...

Não é fácil conviver tão de perto com tantas diferenças. Mas conseguiste encontrar o equilíbrio e anda bem!

bolacha said...

:)
Gostei de saber como se diz "amo-te" em chines :)

Beijokas

Isabel's compagniet said...

Olha, eu só sabia dizer amo-te em dinamarquês! eheheh! Já agora diz-se "jeg elsker dig".
É mesmo muito dificíl, quando se muda para tão longe do nosso pequeno mundo, e o teu novo mundo é mesmo MUITO diferente! Que coragem! Só por amor é que essas situações são possíveis ultrapassar. E quando começaram desentender-se... Acho que a solução deve ter sido procurar um ninho só para os dois... mas fico a aguardar os próximos episódios!
Beijinhos ( obrigada pelo mail!)
Isabel

mãe tataruga said...

Realmente é muito complicado viver num pais tão distante, com habitos diferentes e com uma sogra intrusa...conseguiste vencer, isso é que é importante
Beijinhos

Luísa said...

Devem ter sido tempos dificeis. Ainda bem que parece já teres encontrado o equilibrio.
beijocas

Amores Perfeitos said...

sogras..... sem comentários!

essa de entrarem em casa uns dos outros por ali a dentro tb me faria mta confusão, aguardo(como sempre)a continuação

guga said...

Eles são mesmo diferentes de nós. A mim também me metiam confusão as coisas que descreveste.

bjs Sandra

Jane & Cia said...

Os começos são sempre feitos de alguns equívocos, frustações e mal entendidos até.

Sei-vos juntos e sei que ultrapassaram as dificuldades.

Como?

Piquinota said...

Não me consigo imaginar numa situação assim!! E ainda por cima, tão longe da tua família e amigos!!


Jinhos

Anonymous said...

olá Linda...

cada vez te admiro mais.ês uma mulher cheia de coragem, pois nao deve ter sido facil a tua adaptacao e ainda por cima sem a tua familia por perto.
Mas o que nao fazemos por um grande amor e ainda bem que esse amor dura atéhoje e deu te esses bonequinhos lindos...
Beijinho muito grande
Cristina Perdidosemafrica

mãe gabi said...

ai ai tou a adorar...

ai as sograss

carla m. said...

Essa parte de ter as chaves e entrar quando quisesse...ai fazia me mesmo muita confusão!

Tânia by Cyprus said...

As sogras.. tinha tanto para dizer.. Mas o teu caso é pior pois estás longe da tua família, a única que te ama incondicionalmete.
Continua a história, quero saber tudo, estou a adorar! E já agora conta como estão as coisas agora com a tua "nova" família... pode ser que eu me inspire lol!!!

helena said...

Continua, continua. Quero saber mais. Como é que deste a volta á coisa? beijocas

Manela said...

Estou a adorar esta história, a tua história, estou mortinha pelo proximo episodio real.
Bjs

reborn said...

Situação complicada, diferentes civilizações e mentalidades. Felizmente que tudo se resolveu :) Beijos**********